
Os perigos de uma comunicação científica única
Diversificar a comunicação científica não é apenas uma questão de equidade, mas de justiça social.
“A história única cria estereótipos, e o problema com os estereótipos não é que não estejam certos, mas sim que sejam incompletos. Fazem que uma história se torne a única história”. A célebre frase de Chimamanda Ngozi Adichie em sua famosa palestra TED pode ser aplicada de forma clara e reveladora à comunicação científica. Quando a ciência é transmitida através de uma única narrativa, ela não apenas falha em capturar a amplitude de perspectivas, mas também reforça estereótipos, excluindo uma parte significativa da população e, muitas vezes, sugerindo que determinados grupos não pertencem ao campo científico.
Historicamente, a comunicação científica tem sido dominada por uma visão estreita e exclusiva, centrada principalmente em homens brancos e ocidentais. Esse enfoque limitador tem marginalizado mulheres, pessoas negras, indígenas, membros da comunidade LGBTQIA+ e outros grupos diversos. Essa visão empobrecida impede que a ciência se beneficie da riqueza e profundidade que uma narrativa mais inclusiva poderia oferecer. Para enfrentar os desafios complexos e multifacetados que o mundo atual exige, a ciência precisa abraçar e refletir a diversidade da sociedade.
A comunicação científica tem um papel crucial nesse processo, pois é responsável por refletir todas as perspectivas, garantindo que o campo científico seja representativo e responda às diversas necessidades da sociedade global. Ao incluir uma gama mais ampla de vozes e experiências, a comunicação científica pode desempenhar melhor seu papel e contribuir para uma compreensão mais ampla e integral do mundo.
Durante muito tempo, a ciência e a comunicação científica foram dominadas por perspectivas ocidentais, brancas e masculinizadas, perpetuando desigualdades sistêmicas e a exclusão de minorias. Membros de grupos historicamente marginalizados enfrentam múltiplas formas de opressão, sendo que políticas racistas e a desigualdade estrutural em áreas como educação, saúde e habitação geraram barreiras para a participação dessas populações no campo científico. Essas desigualdades se refletem diretamente na comunicação científica, onde a diversidade racial e étnica ainda é limitada, especialmente em ciência e tecnologia.
A falta de diversidade no campo científico resulta em uma abrangência limitada da pesquisa, muitas vezes ignorando temas relevantes para os grupos minoritários. Isso se traduz em uma comunicação pública da ciência que exclui essas vozes, afetando a percepção da sociedade sobre quem pode ou não ser um cientista. Esse ciclo vicioso impede que os grupos historicamente marginalizados se vejam representados, o que torna menos provável que se interessem por carreiras científicas.
O domínio de concepções ocidentais e eurocêntricas de ciência mantém uma cultura de exclusão sistêmica, criando barreiras para uma comunicação científica inclusiva (CSI). Além disso, a falta de diversidade nas equipes científicas impacta diretamente a validade da pesquisa. Quando um grupo homogêneo, predominantemente branco e de classe média, domina a pesquisa científica, é mais provável que se concentre em problemas e populações similares, o que leva a resultados que não podem ser generalizados para outros grupos. Essa limitação afeta a aplicabilidade e a amplitude do conhecimento produzido.
Portanto, a ciência e a comunicação científica precisam de uma abordagem mais inclusiva, que vá além do simples acesso à educação e recursos. A verdadeira inclusão exige uma mudança fundamental na forma como a ciência é comunicada e percebida pela sociedade. Para construir uma comunidade científica mais equitativa, é necessário desmantelar os preconceitos implícitos que existem tanto na ciência quanto na sua comunicação, promovendo um ambiente que abrace a diversidade em todas as suas formas.
As mulheres, embora tenham sido sempre parte integral da ciência, frequentemente têm suas contribuições ofuscadas ou ignoradas. Mesmo com avanços significativos na representação feminina, ainda existe uma disparidade alarmante em áreas como as citações de artigos, onde homens são mais citados do que suas contrapartes mulheres, mesmo em áreas onde as mulheres estão bem representadas. Esse desequilíbrio se reflete também na comunicação científica, onde as vozes masculinas dominam as discussões e a formulação de políticas científicas.
Além disso, as mulheres enfrentam desafios estruturais, como a subrepresentação em cargos de liderança, disparidade salarial e instabilidade profissional, perpetuando uma espécie de "gueto" dentro das comunidades científicas. Essa marginalização exacerba as desigualdades e impede uma visão científica mais equilibrada.
Outro desafio é a sub-representação de grupos LGBTQIA+ e de minorias raciais e étnicas na ciência. Pessoas LGBTQIA+ enfrentam discriminação e limitações nas oportunidades de carreira, enquanto indivíduos negros, indígenas e de outras etnias sub-representadas enfrentam barreiras semelhantes. Essa exclusão cria uma ciência e uma comunicação científica enviesadas, que não refletem a diversidade de experiências e perspectivas que são essenciais para a inovação e o avanço científico.
Portanto, a solução para essas disparidades não reside apenas em garantir o acesso, mas em repensar como a ciência é comunicada para torná-la verdadeiramente inclusiva e equitativa. A comunicação científica não é apenas um meio de disseminar conhecimento, mas uma ferramenta poderosa para promover justiça social e garantir que todas as pessoas, independentemente de sua identidade ou origem, se sintam reconhecidas e representadas no processo científico.
Diversificar a comunicação científica não é apenas uma questão de equidade, mas de justiça social. A representação é essencial para fortalecer a autoestima e a autoaceitação, e a inclusão de uma gama ampla de vozes enriquece o discurso científico. Ao abraçar essa diversidade, a comunicação científica pode refletir melhor a sociedade, atender às suas necessidades e contribuir para uma compreensão mais ampla e justa do mundo.
Este é um momento crucial para a ciência e sua comunicação. A comunicação científica inclusiva pode ampliar o alcance da pesquisa, integrar novas perspectivas e promover uma inovação mais rica e diversificada. Para que isso aconteça, será necessário um compromisso contínuo com os princípios de diversidade, equidade e inclusão, além de um esforço conjunto de cientistas, comunicadores e instituições para garantir que todas as vozes tenham o devido espaço dentro do campo científico.
Chris Bueno é jornalista, escritora e divulgadora de ciências.

