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Diversificar a comunicação para diversificar a ciência

 

Diversificar a ciência é essencial para o avanço do campo e para o bem-estar da sociedade.


 

Vivemos em uma era de abundância informativa, com uma infinidade de fontes e canais que nos mantêm conectados a uma vasta gama de temas. No entanto, apesar desse cenário dinâmico e multifacetado, alguns canais continuam a ser monoculturais, resistindo à diversificação. Esse fenômeno é particularmente evidente na comunicação científica, onde as fontes predominantes frequentemente reforçam estereótipos limitados, afetando não apenas o campo da ciência, mas também a sociedade de forma ampla. Ao se manterem unidimensionais e de diálogo restrito, essas fontes não abrem espaço para a participação de grupos diversos, excluindo-os de um discurso que se torna cada vez mais relevante. Essa exclusão não só dificulta a comunicação, mas também limita a profundidade e amplitude da compreensão científica e seu impacto social. Portanto, adotar um enfoque mais inclusivo na comunicação científica é fundamental para fomentar um diálogo mais amplo, que beneficie a todos.

Na atualidade, a ciência e o acesso à informação estão longe de ser igualmente distribuídos. Grupos como pessoas negras, indígenas, de cor (BIPOC) e mulheres enfrentam barreiras estruturais e desigualdades persistentes em sua participação científica. Entender e divulgar a ciência de maneira acessível e inclusiva é crucial para que a sociedade compreenda as questões que impactam diretamente seu futuro, como saúde, mudanças climáticas e inteligência artificial. Reconhecer o papel ativo de todos os indivíduos no processo científico é essencial, pois garante que a população tome decisões bem informadas sobre esses temas urgentes.
 

Uma comunicação científica eficaz deve se basear em inclusão, equidade e interseccionalidade. No entanto, muitos modelos de comunicação ainda não consideram as diferentes formas de conhecimento nem a autonomia dos indivíduos. Superar as barreiras sistêmicas e incluir pessoas com identidades e conhecimentos diversos pode tornar a comunicação científica mais impactante, ampliando seu alcance e efetividade. Ao insistir em um único modelo de comunicação, excluindo grupos como BIPOC e mulheres, não só negamos o acesso a esses grupos, mas também limitamos o potencial da própria ciência e suas contribuições para a sociedade.
 

Este estudo visa analisar como a comunicação científica pode desempenhar um papel na promoção da diversidade dentro da ciência. Ao dar voz a grupos marginalizados, a comunicação científica se torna uma ferramenta crucial para diversificar a ciência. Reconhecer a inserção cultural de diferentes contextos não enfraquece os princípios fundamentais da ciência. Pelo contrário, as interações dinâmicas entre diversos grupos garantem a adaptabilidade da ciência, que precisa evoluir e crescer de forma plural, para responder aos desafios contemporâneos.
 

Num cenário dominado pela inteligência artificial, fake news e deepfakes, a comunicação científica efetiva é mais essencial do que nunca. Para que essa comunicação tenha impacto real, ela deve se conectar de forma significativa com a sociedade, incentivando a participação ativa e a interação. Quando a sociedade não se vê representada na comunicação científica, cria-se uma barreira, enfraquecendo a confiança no campo científico e colocando em risco o propósito da própria pesquisa. Para que a ciência cumpra seu papel e tenha impacto, ela precisa refletir a diversidade da sociedade, e a comunicação científica é um elo fundamental para garantir que os avanços científicos sejam acessíveis e relevantes para todos.
 

A comunicação científica atua como um link vital entre a ciência e a sociedade. O modo como nos engajamos nos diálogos sobre ciência influencia diretamente a pesquisa, a participação pública e a identificação social com os avanços e benefícios científicos. Quando minorias estão sub-representadas ou sem acesso a essa comunicação, tanto a ciência quanto a sociedade sofrem. Por isso, é fundamental envolver pessoas de diferentes gêneros, etnias, orientações sexuais, experiências e áreas de especialização na comunicação científica. Essa abordagem inclusiva não só combate as desigualdades, mas também fortalece a força de trabalho científica capacitada.
 

Para que a comunicação científica seja eficaz, é necessário engajar múltiplos interessados, combater a desinformação e incentivar uma maior participação na ciência. No entanto, o campo da comunicação científica ainda enfrenta desafios para alcançar verdadeiramente audiências diversas, o que exige a revisão das estratégias comunicativas diante da digitalização crescente da sociedade.
 

A comunicação científica diversificada pode contribuir para a construção de uma comunidade científica mais inclusiva. Uma estratégia de comunicação inclusiva pode enriquecer o discurso científico, tornando-o mais eficaz e, ao mesmo tempo, beneficiando tanto a ciência quanto a sociedade.
 

Diversificar a ciência é essencial para o avanço do campo e para o bem-estar da sociedade. Os desafios complexos enfrentados atualmente exigem a inclusão de diversas perspectivas para que soluções inovadoras sejam encontradas e erros do passado não sejam repetidos. Da mesma forma, diversificar a comunicação científica é crucial para enriquecer o diálogo e promover a inclusão. Ao criar espaços para as minorias historicamente marginalizadas, podemos melhorar a compreensão e a participação coletiva, valorizando as contribuições diversas e fortalecendo a eficácia do discurso científico.
 

A comunicação científica moderna desempenha múltiplos papéis sociais: envolve diversos atores, combate a desinformação e promove a participação mais ampla na ciência. Contudo, ainda enfrenta desafios significativos para promover inclusão, equidade, interseccionalidade e diálogo crítico tanto dentro do campo quanto com o público externo.
 

A comunicação científica inclusiva (CCI) é essencial para superar esses desafios. Seu objetivo não é apenas romper estereótipos, mas também cultivar curiosidade, confiança e mudanças comportamentais por meio de abordagens culturalmente relevantes, como a pesquisa comunitária e o design inclusivo de exposições. Ao envolver diversas comunidades em todas as fases — do planejamento à execução das iniciativas — a CCI assegura que a comunicação científica ressoe com os valores e as necessidades de quem se busca envolver.
 

A diversidade na comunicação científica não só melhora as capacidades de resolução de problemas, mas também enriquece o discurso científico, contribuindo para o crescimento econômico a longo prazo ao fomentar uma força de trabalho científica mais capaz e inovadora. Pesquisas demonstram que as perspectivas diversas, sejam de gênero, etnia ou cultura, geram soluções mais inovadoras em contextos científicos e organizacionais.
 

Apesar de seus potenciais benefícios, as iniciativas de comunicação científica mal executadas podem reforçar inadvertidamente as desigualdades sociais. Por isso, é fundamental que os esforços de CCI sejam intencionais e reflexivos, baseados em princípios de equidade, reciprocidade e reflexão crítica. Esses princípios orientam o design, a implementação e a avaliação das ações de comunicação científica, com o objetivo de desconstruir os preconceitos históricos e criar espaços inclusivos que fortaleçam as comunidades marginalizadas.
 

A comunicação científica inclusiva representa um movimento transformador no campo da ciência, defendendo a inclusão e a igualdade em uma sociedade pluralista. Ela integra diversas perspectivas e disciplinas, desafiando abordagens isoladas e promovendo o diálogo colaborativo.
 

Na prática, a CCI exige flexibilidade e adaptabilidade, utilizando uma variedade de ferramentas e técnicas em diferentes plataformas para atingir efetivamente públicos diversos. O diálogo e a colaboração são essenciais, especialmente ao lidar com temas sensíveis, garantindo que todas as vozes sejam ouvidas e valorizadas.

Ao promover a equidade, a diversidade e a inclusão (EDI), a comunicação científica inclusiva não só enriquece o discurso científico, mas também aborda as disparidades históricas na representação científica. Além disso, ao abraçar indivíduos de diferentes gêneros, etnias, origens e crenças, a ciência se beneficia de uma gama mais ampla de perspectivas, o que fortalece a relevância e o impacto de suas pesquisas.

No futuro, é imprescindível que as iniciativas de comunicação científica continuem a defender os princípios de EDI em todos os níveis de participação científica, criando espaços inclusivos onde as vozes diversas sejam valorizadas e contribuam para moldar a agenda científica.

 

Chris Bueno é jornalista, escritora e divulgadora de ciências.

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