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O trabalho foi desenhado para quem?

Ergonomia, ciência invisível e os corpos femininos que sustentam o cotidiano produtivo.


 

Ela ajusta a cadeira antes de sentar, inclina levemente a tela do computador, estica os ombros doloridos. Entre uma tarefa e outra, responde mensagens, organiza prazos, pensa no almoço, na reunião da tarde, no filho que ficou com febre. O corpo está ali, presente, mas raramente levado em conta. No escritório, na fábrica, no hospital, no home office improvisado, milhões de mulheres fazem diariamente um sofisticado exercício de adaptação: adaptar-se a um trabalho que quase nunca foi pensado para elas. É nessa cena banal — silenciosa, repetida, invisível — que a ciência da ergonomia atua, mesmo quando ninguém a reconhece como ciência.

O mundo do trabalho atravessa transformações profundas. Jornadas mais longas, metas cada vez mais agressivas, vínculos precários e plataformas digitais que confundem autonomia com disponibilidade permanente criam um ambiente de instabilidade constante. A globalização e as tecnologias aceleraram processos, mas também comprimiram tempos, borraram fronteiras entre vida pessoal e profissional e ampliaram o desgaste físico e mental. Nesse cenário, discutir saúde no trabalho deixa de ser um tema periférico e se afirma como um direito humano fundamental — e como um campo científico decisivo para pensar o futuro do trabalho.

A ergonomia nasce exatamente desse esforço: adaptar o trabalho ao ser humano, e não o contrário. Trata-se de uma ciência que investiga a relação entre pessoas, tarefas, ambientes e sistemas produtivos, buscando segurança, conforto e eficiência. Muito além da imagem reduzida da “cadeira certa” ou da “postura correta”, a ergonomia envolve iluminação, ruído, temperatura, ritmo, pausas, organização do trabalho e, sobretudo, os limites do corpo e da mente. Quando bem aplicada, previne lesões, reduz estresse, melhora a saúde mental e impacta diretamente a produtividade e a satisfação no trabalho.

Mas existe uma ergonomia que raramente ganha destaque: aquela que lida com o que não é imediatamente visível. A ergonomia cognitiva e a ergonomia organizacional — reconhecidas pela International Ergonomics Association e pela NR-17 no Brasil — lidam com carga mental, tomada de decisão, fadiga psíquica, cultura organizacional, controle de produtividade e gestão do tempo. São dimensões centrais para compreender por que tantas pessoas adoecem mesmo sentadas em cadeiras “ergonômicas”.

A ergonomia cognitiva investiga os processos mentais envolvidos no trabalho: atenção, memória, raciocínio, percepção, consciência situacional. Interfaces confusas, excesso de informações, multitarefas constantes e cobranças contraditórias produzem uma sobrecarga invisível, mas devastadora. Não é à toa que estudos desde os anos 1960 já associavam trabalhos sem esforço físico aparente — como o das telefonistas observadas pelo psiquiatra Louis Le Guillant — a dores de cabeça, alterações de humor e esgotamento persistente. O cérebro também se cansa. E quando isso acontece, surgem erros, ansiedade, depressão, burnout.

A ergonomia organizacional amplia ainda mais o foco. Ela observa o clima da empresa, as políticas de gestão, a divisão de tarefas, o ritmo imposto, as formas de comunicação. Avalia a distância entre o trabalho prescrito — aquele descrito nos manuais — e o trabalho real, que exige improviso constante. Ambientes competitivos, metas irreais e culturas que naturalizam a exaustão criam adoecimento coletivo. Ainda assim, esses fatores seguem sendo tratados como problemas individuais, e não como falhas de desenho do trabalho.

É nesse ponto que a questão de gênero se torna incontornável. Grande parte dos ambientes produtivos foi historicamente projetada a partir de parâmetros masculinos: medidas corporais, força média, disponibilidade de tempo, linearidade da jornada. O corpo feminino — com suas especificidades anatômicas, fisiológicas e sociais — aparece como um desvio a ser corrigido, e não como referência legítima. Mobiliários inadequados, EPIs que não se ajustam, ferramentas desconfortáveis e posturas forçadas aumentam a incidência de LER/DORT, lombalgias e dores crônicas, que atingem desproporcionalmente as mulheres.

Além disso, a ergonomia raramente incorpora, de forma sistemática, as diferentes fases da vida feminina. Gravidez, amamentação, ciclos hormonais e envelhecimento impactam diretamente a relação com o trabalho. Pausas, ajustes de função, flexibilidade e escuta deveriam ser práticas científicas básicas — mas muitas vezes são vistas como concessões ou privilégios. Soma-se a isso a dupla jornada, ainda amplamente naturalizada, que empurra o corpo feminino para um estado permanente de sobrecarga física e mental.

Há também dimensões menos mensuráveis, mas igualmente ergonômicas: violência simbólica, desvalorização, assédio moral e sexual. Ambientes hostis produzem sofrimento psíquico, afetam a concentração, corroem a motivação e deixam marcas duradouras na saúde mental. Ignorar esses fatores é, novamente, negar ciência. A ergonomia organizacional mostra que não existe produtividade sustentável em contextos de medo, humilhação ou silenciamento.

Pensar ergonomia a partir das mulheres não é fragmentar o debate, mas aprofundá-lo. É reconhecer que equidade não significa tratar todos de forma igual, e sim oferecer a cada corpo aquilo de que ele precisa para trabalhar sem adoecer. Uma ergonomia sensível ao gênero não beneficia apenas mulheres: ela revela os limites de um modelo produtivo que exige adaptação constante dos corpos, em vez de se adaptar a eles.

No fim das contas, a pergunta central não é apenas como ajustar cadeiras ou telas, mas quem está desenhando o trabalho — e a partir de quais corpos, saberes e experiências. A ciência da ergonomia, quando levada a sério, tensiona hierarquias, questiona naturalizações e aponta caminhos para um trabalho mais humano. Tornar visível essa ciência cotidiana, praticada muitas vezes por mulheres e sobre mulheres, é um passo essencial para transformar não só os ambientes de trabalho, mas a própria ideia de produtividade.

Reconhecer a ergonomia como ciência viva, crítica e socialmente situada é reconhecer que saúde no trabalho não é custo, nem favor. É projeto de futuro. E esse futuro só será sustentável se incluir, de forma concreta, os corpos que hoje sustentam silenciosamente o mundo do trabalho.

 

Chris Bueno é jornalista, escritora e divulgadora de ciências.

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