
Onde a ciência cria raízes
Hortas urbanas revelam saberes científicos invisibilizados, protagonizados por mulheres e cultivados nas periferias das cidades.
Entre buzinas, semáforos, prédios espelhados e a pressa constante da cidade grande, quase passam despercebidos pequenos canteiros verdes espremidos no concreto. Em meio ao caos urbano, iniciativas comunitárias encontram solo para crescer e desafiam a lógica de que a cidade é apenas espaço de circulação e consumo. Ali, onde brotam tomates, alfaces e rúcula, germinam também vínculos, saberes e disputas.
Nas grandes cidades brasileiras, entre o concreto, a desigualdade e a escassez de políticas públicas, germina uma revolução silenciosa. Hortas urbanas — muitas vezes tratadas como ações pontuais, voluntaristas ou de subsistência — tornaram-se espaços onde conhecimentos científicos são produzidos, testados, tensionados e transmitidos cotidianamente. E, quase sempre, por sujeitos que raramente são reconhecidos como produtores de ciência: mulheres, moradores das periferias, crianças.
O que se cultiva nesses espaços vai muito além de alface, coentro ou tomate. Cultiva-se conhecimento sobre o solo, o clima, os ciclos biológicos, a biodiversidade urbana, a nutrição, a saúde mental, a gestão da água e a economia local. São verdadeiros laboratórios a céu aberto, onde ciência acadêmica e ciência cidadã se encontram — nem sempre de forma pacífica, mas quase sempre de maneira produtiva.
Durante décadas, as hortas comunitárias foram empurradas para a margem das políticas públicas e do debate científico. Vistas como práticas menores, informais ou assistenciais, eram tratadas como resposta emergencial à fome, nunca como estratégia estruturante de cidade. Esse olhar começa a mudar, não por benevolência institucional, mas porque a crise climática, alimentar e urbana tornou impossível ignorar o que brota nas bordas do mapa oficial da cidade.
Pesquisas científicas demonstram que áreas verdes cultivadas reduzem ilhas de calor em até 3 °C, melhoram a drenagem do solo, absorvem até 30% mais água da chuva do que superfícies pavimentadas e contribuem para a biodiversidade urbana. Plantas filtram partículas do ar, regulam a umidade e criam microclimas mais habitáveis. Minhocas, fungos e bactérias — invisíveis aos olhos, essenciais aos ecossistemas — transformam a composteira em um complexo sistema bioquímico em funcionamento contínuo. Nada disso é abstração: é ciência aplicada no cotidiano.
Mas há um aspecto ainda mais incômodo para os modelos tradicionais de produção de conhecimento. Boa parte desses saberes não nasce na universidade. Nasce na prática, na observação atenta, no erro e na adaptação. Mulheres que aprenderam com mães e avós a reconhecer o tempo da terra desenvolvem técnicas agroecológicas sofisticadas sem jamais nomeá-las assim. Crianças que acompanham o ciclo do alimento incorporam, pela experiência, conceitos de ecologia que muitos adultos só encontram nos livros.
Em São Paulo, projetos como o desenvolvido no CEI Margarida Maria Alves, em parceria com pesquisadores do Insper e do WWF-Brasil, mostram o que acontece quando a ciência decide escutar o território. Dados geográficos, literatura acadêmica e escuta ativa das lideranças comunitárias deram origem a uma horta que é, ao mesmo tempo, espaço pedagógico, ambiental e político. As crianças participaram de todo o processo, do plantio à compostagem. Aprenderam ciência sem chamá-la assim — talvez da forma mais profunda possível.
Em Recife, o Telhado Eco Produtivo da ONG Comunidade dos Pequenos Profetas segue a mesma direção. Pesquisa da UFPE revela que hortas urbanas também funcionam como dispositivos de cidadania infantil, devolvendo às crianças o direito à cidade. Em um contexto urbano que as empurra para espaços fechados e mercantilizados, a horta restitui experiência, pertencimento e participação.
Nas periferias, esse movimento ganha contornos ainda mais potentes. Em territórios como Heliópolis, Paraisópolis, Manguinhos, Vila União ou Dirceu, hortas não apenas alimentam: organizam. Geram renda, fortalecem redes de apoio, criam circuitos curtos de comercialização e disputam o uso do território. Transformam terrenos baldios — antes associados ao abandono — em espaços produtivos, simbólicos e politicamente ativos.
E, quase sempre, são as mulheres que sustentam esses processos. Elas plantam, organizam, ensinam, negociam com o poder público e cuidam da alimentação e da saúde coletiva. O gesto de cultivar torna-se político. O cuidado historicamente confinado ao espaço doméstico transborda para o cuidado com a cidade. A terra vira espaço de resistência e de futuro.
Esse protagonismo feminino revela uma dimensão frequentemente ignorada da ciência: sua dimensão ética e relacional. Ao articular alimentação, saúde, educação e meio ambiente, as hortas urbanas desmontam fronteiras disciplinares rígidas. Mostram que ciência não é apenas método, mas também vínculo, escuta, responsabilidade e compromisso com a vida cotidiana.
O reconhecimento institucional começa a chegar, ainda que timidamente. A criação da Política Nacional de Agricultura Urbana e Periurbana e programas como o Sampa+Rural indicam avanços. Mas os desafios permanecem: falta de dados consolidados, acesso a crédito, apoio técnico contínuo e segurança jurídica para quem cultiva. Persistem também hierarquias do conhecimento que insistem em separar quem “sabe” de quem “faz”.
Talvez a pergunta mais urgente não seja se hortas urbanas produzem ciência. Elas produzem. A questão central é outra: que ciência estamos dispostos a reconhecer como legítima? Ao desafiar modelos excludentes de produção do saber, as hortas urbanas revelam que ciência e transformação social caminham juntas quando o conhecimento nasce do território, responde a necessidades concretas e redistribui poder. Entre o asfalto e o concreto, elas ensinam uma lição incômoda e essencial: ciência também cria raízes — e, quando cria, alimenta, organiza e transforma a cidade.
Chris Bueno é jornalista, escritora e divulgadora de ciências.

