
Inteligência Artificial, comunicação científica e a representação das mulheres
As mesmas ferramentas que prometem inclusão podem, inadvertidamente, perpetuar desigualdades de gênero e estereótipos sociais.
A comunicação científica é fundamental para conectar descobertas científicas ao público, promovendo o entendimento e a participação da sociedade no avanço do conhecimento. Recentemente, a integração da inteligência artificial (IA) nas atividades de pesquisa, educação e comunicação transformou esse campo, mudando a forma como a informação científica é criada, compartilhada e compreendida.
A IA une a ciência da computação à criatividade, revolucionando a interação das máquinas com o mundo. Com capacidades impressionantes de análise de dados, geração de textos, imagens e áudios, ferramentas como ChatGPT, DALL·E e VALL-E exemplificam o poder da chamada IA generativa. Estas tecnologias não apenas tornam a comunicação científica mais acessível, mas também democratizam os meios para disseminar descobertas, ampliando as conexões entre ciência e sociedade.
No entanto, essa revolução tecnológica não está isenta de desafios. As mesmas ferramentas que prometem inclusão podem, inadvertidamente, perpetuar desigualdades de gênero e estereótipos sociais. Isso ocorre porque os sistemas de IA são treinados com dados construídos por humanos, refletindo, assim, preconceitos presentes na sociedade, como racismo, sexismo, misoginia e transfobia. Essas falhas estruturais impactam negativamente grupos já marginalizados, ampliando barreiras que deveriam ser superadas.
A relação entre gênero e IA: Um ciclo de exclusão
A desigualdade de gênero na IA começa desde a base: apenas 22% dos profissionais que atuam em inteligência artificial e ciência de dados são mulheres, e muitas vezes em cargos de menor status. Essa sub-representação afeta todas as etapas de desenvolvimento da IA, desde a coleta e rotulação dos dados até a criação dos algoritmos. Além disso, os dados usados para treinar essas ferramentas frequentemente reforçam padrões históricos de exclusão.
Por exemplo, sistemas como o Google Translate tendem a associar pronomes masculinos a profissões e termos neutros, perpetuando a ideia de que certas áreas são dominadas por homens. Estudos recentes também mostraram que ferramentas de geração de imagens, como DALL·E, visualizam profissionais de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) quase exclusivamente como homens, desincentivando mulheres a seguir carreiras nessas áreas.
Na saúde, os algoritmos treinados com dados predominantemente masculinos produzem diagnósticos menos precisos para mulheres, expondo-as a riscos. Essas desigualdades se agravam com a exclusão digital global: em países de baixa renda, apenas 20% das mulheres têm acesso à internet, criando uma lacuna de dados que reforça as desigualdades na IA.
Superando barreiras: O futuro da IA e da comunicação científica
Apesar dos desafios, o potencial transformador da IA na comunicação científica é imenso. Ferramentas baseadas em IA já auxiliam cientistas a identificar lacunas de pesquisa, gerar hipóteses, coletar e analisar dados, além de apresentar resultados de forma visual e acessível. Mais importante, essas tecnologias podem conectar audiências diversas a temas científicos, promovendo o engajamento público e uma ciência mais inclusiva.
Contudo, para que a IA cumpra essa promessa, é crucial abordar seus vieses estruturais. Diversificar as equipes que desenvolvem IA, melhorar a representatividade dos dados de treinamento e implementar práticas de design éticas são passos fundamentais para garantir que essas tecnologias sirvam a todos de forma justa. Colaborações entre cientistas, desenvolvedores, formuladores de políticas públicas e especialistas em ciências sociais serão essenciais para construir uma IA que promova a equidade e amplie os horizontes da comunicação científica.
A interseção entre IA, comunicação científica e representação de gênero oferece desafios complexos, mas também oportunidades inexploradas. Ao reconhecermos os riscos e trabalharmos para superá-los, podemos garantir que a IA seja uma aliada na construção de uma sociedade mais justa, diversa e informada.
Chris Bueno é jornalista, escritora e divulgadora de ciências.

